terça-feira, 3 de agosto de 2010

Memória Literária

COMO NUM FILME


Não foi difícil cair nas graças de seu Amalfi. Direto, sincero, amoroso,

foi logo falando de sua vida, com um jeito meio solto, especial, como quem

vai montando uma sequência de cenas em nosso pensamento. De início,

estáticas e em preto e branco, e, aos poucos, em impulsos coloridos. Depois

de uma ou outra pergunta, quase nem precisei falar mais nada. Apenas ouvir,

entregar-se à brincadeira da memória era o que bastava.

Ele foi contando, contando e imagens foram se instalando em mim

como quem entra em um filme.

“Esse cheirinho de café pendurado no vento leve conduz a meu tempo

mais antigo.

Pensei ouvir bem baixinho um fiapo de uma canção napolitana e

tudo veio à tona. Logo lembrei-me de minha mãe torrando café, fazendo

o pão, a macarronada. Bem que procuro não pensar muito para não

marejar os olhos.

O começo de tudo foi na Itália. De lá vieram meus pais. Fugidos do

horror da guerra, acabaram por fazer a vida aqui em São Paulo, onde

nasci.

É a partir dessas lembranças que minha cabeça parece uma máquina de

fabricar filmes.

Recordo muita coisa. Não só do que minha mãe contava, mais ainda

das que eu vivi.

Lá pelos idos de 1929, com cerca de sete anos de idade, era menino

feito. Minha vida era um misto de cowboy com Tarzan. Onde hoje fica o

Shopping Center Norte era só mato, água e muita, muita terra. Era lá meu

paraíso. Meu e dos meus amigos: o Vitorino, o Zacarias... Vivia para jogar

futebol, nadar, pescar e caçar passarinhos.

Uma brincadeira de que gostávamos muito era ‘chocar o trem’. Sabe o

que é isso?

Era subir rapidinho no trem em movimento. Ele andava bem devagar, é

claro, levando pedras da Serra da Cantareira para construir a cidade. Com

o tempo seu trajeto se encheu de bairros: Tucuruvi, Jaçanã, Vila Mazzei,

Água Fria e mais o que há agora. Lembra aquela música do Adoniran? Tem

a ver com esse trem...

Da escola eu não gostava tanto. Não era um bom aluno, mas era esperto,

vivido. Isso sim. O que acabava ajudando em muitas situações... Em um

abrir e fechar dos olhos da memória lá estão a escola, o corre-corre das

crianças e todos eles, intactos e em plena labuta do dia: Dona Albertina,

Dona Isabel, Seu Luís, os professores. Ainda o Seu Peter, o diretor, e Seu

Luigi, o servente. Quantas vezes em meio à cópia da lousa, que seguia plena

em silêncio e dever, disparava um piscar enviesado para meus companheiros

de time. Quebrávamos as pontas dos lápis e com o descaramento e a

falsa pretensão de deixarmos todos eles apontadinhos para a letra ficar

bem desenhada e bem bonita nas nossas brochuras, lá íamos nós, atrás da

porta e com a gilette em punho, armar em cochichos a melhor estratégia

para o próximo jogo. Tudo lorota!

Meio moleque, meio mocinho, sempre dava algum jeito de arranjar um

dinheirinho para ir à Voluntários, uma das poucas ruas calçadas do bairro,

nas matinês do cine Orion.

Meu figurino era feito por minha mãe: uma camisa clara, bem limpa e

passadinha com ferro de brasa. Com meus colegas ia ver o que estava em

cartaz. Bangue-bangue era o melhor. Lembro-me do Buck Jones, do Rin

Tin Tin, do Roy Rogers e mais uma porção daqueles bambas do momento.

Também me recordo do cine Vogue e de Seu Carvalho, seu dono e

operador, que, ao constatar a enorme fila na bilheteria, dizia para nós,

garotos, com certo orgulho solene, só haver lugares em pé. Entrávamos

mesmo assim. Depois de alguns minutos já tínhamos nossos lugares escolhidos

e... sentados. No escurinho do filme começado, queimávamos

um barbante malcheiroso que fazia todo mundo desaparecer de nosso

lugar preferido. Comédia pura, não é?

Nesse ponto, interrompa a leitura e pergunte aos alunos o

que imaginam que acontecerá ao sr. Amalfi. Como acham

que a história dele continua. Ouça alguns alunos, registre

as opiniões deles e depois retome a leitura, até o final.

Com o passar dos anos, veio o tempo do trabalho para valer. De aprendiz

de químico tornei-me o titular na fábrica de perfumes dos libaneses. Fiz

de tudo lá: brilhantina, rouge, pó de arroz, produtos muito usados na época.

Veio também o tempo do namoro sério e, com ele, o cinema com sorvete a

dois. Minha vida era um filme de aventuras, mais que outra coisa. Tive de

vencer muitos obstáculos. E foi um bom tempo assim.

Construir uma família não é fácil, mas, como se sabe, o amor sempre

vence.

Como nos filmes de amor, acabei me casando em technicolor e em cinemascope,

como um galã, com minha Mercedes, mais bonita que Greta Garbo ou

qualquer outra estrela de Hollywood. Com ela comecei a frequentar o centro

de São Paulo. Íamos de bonde elétrico, descíamos na Praça do Correio e

andávamos de braços dados pelos pontos mais elegantes da cidade.

Misturados aos carros que pertenciam a gente muito rica, estavam os

cabriolés,

uma espécie de carroça puxada a cavalos... Na Avenida São João

estavam os melhores cinemas: o Marabá, o Olido, com seus camarotes e frisas.

Quantos filmes! O Canal de Suez, O Morro dos Ventos Uivantes, E o Vento

Levou!

Vejo-nos direitinho, como em um musical, indo para a cidade de bonde.

O condutor, o Delmiro, mais parecia um bailarino, um Fred Astaire tropical,

por conta dos trejeitos, malabarismos de corpo que fazia ao parar, descer,

cumprimentar, receber as pessoas, acomodá-las e, enfim, conduzir o bonde.

Era mais que um motorneiro. Esse era um show à parte!

Se bem me lembro, o cinema me acompanhou a vida inteira. Isso porque

sou do tempo do cinema mudo, veja você, onde os violinos e o piano faziam

nossa imaginação ouvir as vozes e sentir as emoções dos artistas que passavam

rápidos nas telas. Depois veio o cinema falado e para nós isso era a

maior e a melhor invenção. Olhando para o que se passou, constato que fui

um bom frequentador das telas. Com chuva ou com sol!

Até nossa primeira filha, com poucos meses de idade, não impedia nossa

diversão preferida! Era nossa figurante proibida. Íamos ao Bom Retiro, ao

cine Lux. Lá eu conhecia todo mundo e sentávamos com a menina nos braços

bem na última fila, caso precisássemos sair às pressas para acalmar um

choro repentino. Assistimos a tantas histórias e nossa menina dormia profundamente.

Quase sempre.

Talvez por conta do trabalho, das exigências da vida, dos cuidados

com a família e mesmo com a facilidade da televisão, acabei me dando

conta de que fiquei muito tempo sem ir ao cinema. Engraçado, agora que

estou praticamente sozinho, em consequência das perdas que a vida nos

traz, o cinema volta com toda a força. Não perco quase nada do que passanos

shoppings perto de casa. Tudo é mais confortável, imenso. Mas tudo é

mais barulhento, apressado e real demais. Não sobra muito tempo para

sonharmos.

Mesmo assim, quero ir a outros cinemas desta cidade que cresceu e

cresce tanto. O jeito é me armar de um celular para que minha filha não

fique tão preocupada comigo por causa dessas minhas novas aventuras

cinematográficas.”

Quando releio o que está escrito, não sei onde está o que o seu Amalfi me

contou e onde está o que projetei de sua vida em mim. Engraçado mesmo!

Perdi-me nos labirintos da imaginação, onde o presente e o passado se fundem

em um só desenho. A memória brinca com o tempo, como em um filme,

como uma criança feliz.

Antonio Gil Neto. Texto escrito com base no depoimento do sr. Amalfi Mansutti, de 82 anos.